Márcia apresenta com as duas mãos abertas, como quem oferece — nunca como quem pede. Na sala de reuniões, o slide mostra uma palavra em letra grande: "insight". Por trás dela, um gráfico sobe. Ninguém na sala pensa em manipulação. Pensam em trabalho bem feito, porque é isso mesmo que é: Márcia é brilhante naquilo que faz.
"Não criamos a vontade", diz, quando alguém júnior pergunta se não é um bocado antiético empurrar tanto um produto que as pessoas não precisam. "Nunca criamos. Encontramos a dor do consumidor e respondemos a ela." E acredita nisso — não é uma frase de vendas, é a verdade dela. Passou doze anos a aprender a ouvir o que as pessoas já queriam antes de saberem que queriam. Chama-lhe empatia aplicada. Tem razão em chamar-lhe isso.
Em casa, à noite, Márcia vê os próprios filhos a pedir o brinquedo que viram no ecrã do irmão mais velho, com a mesma urgência exacta que ela desenha para os clientes durante o dia. Por um segundo, olha para o pedido do filho e vê o próprio trabalho a olhar de volta para ela. O segundo passa. Ela serve o jantar.
"Nós não criamos a vontade. Nunca criamos. Nós só encontramos a dor do consumidor."
É a frase mais honesta do elenco inteiro — e é exactamente por isso que assusta. Márcia não é a vilã. É a prova de que a corda mais eficaz não precisa de ninguém malvado a puxá-la. Precisa só de alguém competente, simpático, e convencido de que está a ajudar.
