É dia 28 e a conta de Nelito já sabe o que é ficar vazia antes do fim do mês — mas hoje é dia de pagamento, e no dia de pagamento Nelito é outra pessoa. Compra o café a quem está ao lado no balcão. Empresta dez mil a um colega que já não vai pedir de volta, porque perguntar seria admitir que precisa. Diz que sim antes de fazer as contas, e faz as contas depois, sozinho, no WC do banco, com a testa encostada ao espelho.
A mãe liga a pedir para a festa da irmã. Nelito diz que trata de tudo — do bolo, da música, da carrinha para trazer as cadeiras — antes sequer de saber quanto custa. Desliga, respira, abre a aplicação do banco. O número que aparece não é o número que ele disse à mãe que tinha. É metade. Ele olha para o número mais uma vez, como se olhar outra vez o fizesse crescer.
Ninguém em Alvalade sabe que Nelito paga o relógio a prestações há sete meses. Ninguém precisa de saber. O relógio faz o trabalho que o dinheiro não faz — diz a toda a gente, sem Nelito ter de dizer nada, que ele está bem. E se ele diz que está bem vezes suficientes, uma parte dele até acredita.
"Trabalho demais, pá. Demais. Para andar a pensar em cada kwanza que sai."
Ri-se antes de acabar a frase. Ri-se sempre antes das perguntas difíceis — é mais rápido que responder a sério. A mão sobe ao bolso, o telefone sai, o saldo aparece, o telefone volta a guardar-se. Outra vez. Já é a terceira desde que começou a ler isto.
